O Hobbit – Resenha

Aproveitando que as filmagens da adaptação de O Hobbit começaram e a fantasia medieval está em alta, como podemos ver em outra adaptação corajosa do volumoso Crônicas de Fogo e Gelo trazido pela HBO, vou deixar aqui a resenha do Nerd Escritor para este que foi o primeiro livro do unverso da Terra Média de Tolkien.

resenha no O Nerd Escritor

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Como Jane Austen pode mudar sua vida

Aproveitando que a Malu acabou de ler Orgulho e Preconceito, aqui está um artigo da folha de 2006 que eu encontrei sobre a Jane Austen:

Alain de Botton escreveu um livro sobre Proust para mudar todas as vidas. Bom negócio. Nos últimos tempos, tenho pensado em Jane Austen para mudar a minha. Corrijo. Tenho pensado em mim, no meu bolso e nas histórias de Miss Jane para mudar as vossas. Assim é que é.

Acontece quando um amigo (melhor: uma amiga) entra aqui em casa com lágrimas nos olhos. Problemas sentimentais, por favor, não façam caso. Fatalmente, tenho sempre dois objetos sobre a mesa: uma caixa de lenços de papel e, claro, uma cópia de “Orgulho e Preconceito”, o livro que Jane Austen publicou em 1813. Entrego o livro e, com palavras paternais, aconselho: Lê “Orgulho e Preconceito” e encontrarás a luz, meu amor.

Eles lêem e depois regressam, com a alma levantada, mais felizes que Mr. Scrooge ao descobrir que está vivo e é Natal. Inevitável. Jane Austen entendia mais sobre a natureza humana do que quilos e quilos de tratados filosóficos sobre a matéria.

Mas, primeiro, as apresentações: leitores, essa é Jane Austen, donzela inocente que nasceu virgem e morreu virgem. Jane, esses são os leitores (ligeira vênia). A biografia não oferece aventuras. Poderíamos acrescentar que morou com a família até ao fim. Que publicou os seus romances anonimamente, porque não era de bom tom uma mulher se entregar aos prazeres da literatura. E que suas obras, apesar de sucesso moderado, têm conhecido nos últimos anos um sucesso estrondoso e as mais díspares interpretações políticas, literárias, filosóficas, até econômicas. Já li textos sobre a importância das finanças na obra de Jane Austen. Sobre o vestuário. Sobre a decoração de interiores. Sobre os usos da ironia no discurso direto. Para não falar de filmes – mais de vinte – que os seus livros –apenas seis– suscitaram nos últimos tempos. O último “Orgulho e Preconceito” foi recentemente filmado no Reino Unido, com Keira Knightley (suspiros, suspiros) no papel principal. Vai aos Globos de Ouro. Provavelmente, aos Oscars também.

A loucura é total. Jane Austen mal sabia que, depois da morte, em 1817, o mundo acabaria por descobri-la e, sem maldade, usá-la e abusá-la tão completamente. Justo. Considero Jane Austen uma das maiores escritoras de sempre. Incluo os machos na corrida. Sem Austen, seria impensável encontrar Saki, Beerbohm ou Wodehouse. Miss Jane é mãe de todos.

E “Orgulho e Preconceito”? “Orgulho e Preconceito” tem eficácia garantida para males de amor. Vocês conhecem a história: Elizabeth, filha dos Bennet, classe média com riqueza nos negócios (quel horreur!), conhece Darcy, aristocrata pedante. Ela não gosta da soberba dele. Ele começa por desprezar a condição dela –social, física– no primeiro baile onde se encontram. Com o tempo, tudo se altera. Darcy apaixona-se por Elizabeth. Elizabeth resiste, alimentada ainda pelas primeiras impressões sobre Darcy. Darcy declara-se a Elizabeth, sem baixar a guarda do preconceito social. Elizabeth não perdoa o preconceito de Darcy e, ferida no orgulho, recusa os avanços. Darcy vai ao “Faustão”. Não, invento. Darcy lambe as feridas e afasta-se. Mas tudo está bem quando termina bem: Darcy e Elizabeth, depois das primeiras tempestades, estão condenados ao amor conjugal. Aplausos. The end.

As consciências feministas, ou progressistas, sempre amaram a atitude de Elizabeth: nariz alto, opiniões fortes, capaz de vergar Darcy e o seu preconceito aristocrático. Elizabeth seria uma espécie de Julia Roberts em “Pretty Woman”, capaz de conquistar, com seu charme proletário, um Richard Gere que fede a presunção. “Orgulho e Preconceito” seria, neste sentido, um livro anticonservador por excelência, ao contrário de “Sensibilidade e Bom Senso”, onde a hierarquia social tem a palavra decisiva. Elizabeth não é boneca de luxo, disposta a suportar os mandos e desmandos do macho. Ela exige respeito. Pior: numa família com dificuldades financeiras, Elizabeth comete o supremo ultraje –impensável no seu tempo– de recusar propostas de casamento que salvariam a sua condição e a conta bancária de toda a família. A mãe de Elizabeth, deliciosamente histérica, atravessa o romance com achaques nervosos, prostrada no sofá. Se “Orgulho e Preconceito” fosse um romance pós-moderno, a pobre mãezinha passaria metade do tempo suspirando: Esta filha vagabunda vai levar a família toda para a sarjeta!

Elizabeth não cede e triunfa. A família também. E os leitores progressistas?

Esses, não. Os leitores progressistas tendem a ler “Orgulho e Preconceito” como se existissem na trama duas personagens distintas, vindas de mundos distintos, com vícios e virtudes também distintos. Darcy contra Elizabeth, até ao dia em que o amor é mais forte. Erro. Jane Austen não era roteirista em Hollywood. E os leitores progressistas saberiam desse erro se soubessem também que o título original de “Orgulho e Preconceito” não era “Orgulho e Preconceito”. Era, tão simplesmente, “Primeiras Impressões”.

Nem mais. Se existe um tema central no romance, não é Elizabeth, não é Darcy. E não é, escuso de dizer, o dinheiro, a ironia dos diálogos ou a decoração de interiores. “Orgulho e Preconceito” é uma meditação brilhante sobre a forma como as primeiras impressões, as idéias apressadas que construímos sobre os outros, acabam, muitas vezes, por destruir as relações humanas.

De igual forma, “Orgulho e Preconceito” não é, como centenas e centenas de histórias analfabetas, uma história de amor à primeira vista. É, como escreveu Marilyn Butler, professora em Cambridge e a mais importante crítica de Austen, uma história de ódio à primeira vista. E a lição, a lição final, é que amor à primeira vista ou ódio à primeira vista são uma e a mesma coisa: formas preguiçosas de classificar os outros e de nos enganarmos a nós. Elizabeth despreza a arrogância de Darcy sem perceber que essa arrogância, às vezes, é uma forma de defesa: o amor assusta mais do que todos os fantasmas que habitam o coração humano. Darcy despreza Elizabeth porque Elizabeth é uma ameaça ao seu conforto social e até sentimental. Elizabeth e Darcy não são personagens distintos. Eles são, no seu orgulho e preconceito, personagens rigorosamente iguais.

Jane Austen acertou. Duplamente. Como literatura e como aviso. O amor não sobrevive aos ritmos da nossa modernidade. O amor exige tempo e conhecimento. Exige, no fundo, o tempo e o conhecimento que a vida moderna de hoje não permite e, mais, não tolera: se podemos satisfazer todas as nossas necessidades materiais com uma ida ao shopping do bairro, exigimos dos outros igual eficácia. Os seres humanos são apenas produtos que usamos (ou recusamos) de acordo com as mais básicas conveniências. Procuramos continuamente e desesperamos continuamente porque confundimos o efêmero com o permanente, o material com o espiritual. A nossa frustração em encontrar o “amor verdadeiro” é apenas um clichê que esconde o essencial: o amor não é um produto que se compra para combinar com os móveis da sala. É uma arte que se cultiva. Profundamente. Demoradamente.

Por isso, leitores desesperados e sonhadores arrependidos, leiam Jane Austen e limpem as vossas lágrimas! Primeiras impressões todos temos e perdemos. Mas o amor só é verdadeiro quando acontece à segunda vista.

artigo completo na Folha

Resenha: Cachorros e Precious

Aqui estão duas sinopses da Gina:

Cachorros
The New Yorker Cartoons
Agir Editora – 2009
94 páginas

Coletânea de cartuns da New Yorker sobre cachorros que sao ótimos. Eles sao neuróticos, versáteis, mais humanos que os próprios humanos, apresentando um panorama bem completo do que foi o século XX. Fofos, divertidos e atuais, sao tudo de bom.

Precious
Autor: sapphire
Vintage Books, 1997
177 páginas

A história de Precious Jones, uma garota de 16 anos, negra, analfabeta e pobre, moradora do Harlem, que passa por uma serie de dificuldades – abusos físicos da mae e sexuais do pai, ate que encontra uma professora que a ensina a ler e a escrever. Precious passa a registrar a sua vida e a se conscientizar de que ela pode fazer escolhas em relação a sua própria vida.

Resenha: Uma Modesta Proposta

Aproveitando que a Lorna leu recentemente o Uma Modesta Proposta do Jonathan Swift que eu emprestei para ela, aqui está uma resenha curtinha que eu escrevi no meu blog. Lembrando que se vocês quiserem enviar uma resenha para cá, é só mandar para gincanadeleitura@yahoo.com

Eu ganhei esse livro de Natal em 2009 da minha mãe. Já conhecia o conto que dá título ao livro, mas nunca tinha lido nada do Swift. Aliás, não sabia que foi ele quem escreveu A Viagem de Gulliver, muito menos que não deveria ser considerado um livro de fantasia. Depois de tanto tempo acumulando poeira na estante, resolvi fazer uma limpa na minha lista de coisas a ler, ainda mais agora que ingressei nessa gincana de leitura.

Escritor satírico do século XVIII, com humor ácido e completamente contra os intelectualóides e pseudo-cientistas da época, Swift faz uso de ensaois fictícios para mostrar os problemas da Irlanda e do Reino Unido da Época. Uma de suas sátiras mais famosas, por exemplo, Uma Modesta Proposta, sugeria eliminar a fome e a pobreza de uma vez só: crianças de famílias pobres que não tem condições de se sustentar, ao completarem um ano de vida, seriam vendidas para as pessoas mais ricas e sofisticadas da sociedade, para servirem de alimento raro. Para dar verosimilhança ao seu ensaio, Swift entra em detalhes de como essa pode ser uma operação lucrativa para o Reino. O livro também traz contos de Swift sobre a alma, a própria forma dos ensaios e astrologia.